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Trevim - Edição nº 1088   19 Outubro 2007
Secções / Reportagem

Centro Cristão Vida Abundante ajuda famílias carenciadas
Igreja presta apoio social na Lousã

Vieram para a Lousã há cerca de seis anos, como pastores do Centro Cristão Vida Abundante, e cedo se aperceberam de certas carências sociais. Começaram por ajudar casos pontuais de pessoas que conheciam, mas de uma família rapidamente passaram para quatro ou cinco. Hoje ajuda mais de 250 agregados.

A Associação Vida Abundante ficou conhecida por ajudar um casal de búlgaros que estava numa situação alarmante: “viviam numa casa partilhada, por isso, a mulher, grávida na altura, tinha de partilhar o mesmo espaço com vários homens, por não terem meios para viver noutro lugar”. Em pouco tempo, conseguiram alugar-lhes uma casa e “recheá-la com tudo o necessário, desde mobília a panos de cozinha”, afirma Elisa Miguez, uma das voluntárias responsáveis. Este caso chegou ao conhecimento de uma assistente social na Lousã e de várias outras pessoas, o que fez com que recebessem cada vez mais casos de pessoas a precisar urgentemente de ajuda.

Tiveram de encontrar um armazém maior, pois já não tinham espaço para todos os géneros que tinham de gerir. A partir do momento em que passaram a ter instalações próprias, passaram também a funcionar mais como associação do que Igreja. Alugaram uma garagem para armazenar todas as contribuições que recebiam, tanto a nível de alimentação como de vestuário, para depois as distribuírem pelas famílias carenciadas.

Dado o sucesso do projecto, decidiram apresentar os seus serviços à Câmara Municipal, em especial ao vereador Jorge Alves, que detém o pelouro da acção social. Foram convidados para ficarem responsáveis pelo PCAAC, o Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados, o que implica a distribuição dos excedentes da CEE. Como se trata de “um programa que envolve muita burocracia e muita papelada, ainda não tinham encontrado mais ninguém que se quisesse responsabilizar”. Aceitaram o desafio e estão em actividade desde 2005.

“Muita persistência”

Este é um trabalho que começa a ser notório para outros assistentes sociais. Recebem alimentos da CEE duas vezes por ano, mas, como afirma Elisa Miguez, “as pessoas não precisam de comida apenas duas vezes por ano”, por isso, decidiram mudar novamente de instalações para poderem ter um espaço de atendimento. Actualmente, a associação tem as portas abertas todas as terças-feiras. Inicialmente, a distribuição dos géneros era realizada a pé, indo à casa das famílias, mas cedo se aperceberam de que não tinham meios para continuar com este sistema. Agora, no horário de atendimento, são as pessoas que vêm à associação para levantar os géneros que lhes são atribuídos, “alimentação, vestuário ou brinquedos para as crianças”.

Não foi fácil angariar tudo o que precisavam para distribuir pelas inúmeras famílias: tiveram de “bater às portas de várias empresas com muita insistência para conseguir donativos suficientes para todas as famílias em necessidade”. Mas tudo acabou por se compor e conseguiram também ser apoiados, desde Julho deste ano, pelo Banco Alimentar de Coimbra.

Embora sejam muitas as contribuições, a ajuda nunca é demais, por isso, continuam “sempre disponíveis para receber alimentação, brinquedos ou roupa”. Por exemplo, “através do Encontro Nacional de Coleccionadores de Pacotes de Açúcar, que decorreu na Lousã no passado mês de Setembro, a associação recebeu 301 quilos de açúcar”. Elisa Miguez salienta que “na associação não se lida com dinheiros. Trabalha-se apenas com aquilo que é angariado e oferecido: mais géneros do que outra coisa qualquer”. E claro que têm de “prestar contas a quem faz os donativos”. “Lidamos mais com pessoas do que com números. Também não é um trabalho que se faça das 9:00 às 17:00. Se nos pedem ajuda, seja a hora que for, não podemos dizer que resolvemos a situação no dia seguinte, quando sabemos que tem de ser resolvida no próprio dia”. Têm a sorte de “ser uma comunidade que se mobiliza facilmente”, o que permite uma maior eficiência na resolução dos casos.

Neste momento, têm duas voluntárias a trabalhar em regime de permanência, Sandra Rodrigues e Elisa Miguez.

“Coisas separadas”

Não é um requisito pertencer à Igreja da Vida Abundante para se obter ajuda desta associação, “aliás, cerca de 98% das pessoas beneficiadas pela associação não têm qualquer contacto com a Igreja”. O objectivo da associação é “dar resposta às emergências sociais”, por isso, fazem “um esforço para a destrinçar da Igreja, embora esta seja o ponto de apoio, pois é a Igreja que paga a renda das instalações e as restantes contas”.

É por causa desta divisão que os atendimentos nunca são feitos na Igreja, mas na associação. “Quando estamos a ajudar alguém nem sequer fazemos qualquer referência à Igreja, são coisas separadas”, afirma Elisa Miguez.

Uma extensa comunidade

Segundo Elisa Miguez, existem dois tipos de casos: “aquelas famílias com problemas crónicos que, por mais que as ajudem, já sabemos que nunca os vão superar, e aquelas com problemas pontuais”. No fundo, são sempre pessoas que não podem esperar pela resposta a um subsídio, pois precisam de uma ajuda imediata: “se as assistentes sociais nos pedem ajuda é porque se trata mesmo de uma urgência”. Por exemplo, “num daqueles dias de gelo, avisaram-nos que havia uma família com muitas crianças que nem sequer tinham cobertores na cama. Nós accionámos a nossa rede de contactos e nessa mesma noite as crianças já dormiram em melhores condições. Houve mesmo quem fosse comprar alguns cobertores de propósito”.

Embora sejam sempre “muito bem recebidos”, existem sempre casos problemáticos: “algumas pessoas vêm aqui e acham que têm direito a tudo e mais alguma coisa, apenas porque julgam que fazemos parte da Assistência Social, mas também há muita gente que entra acanhada, porque nunca se viu numa situação assim. Pessoas que até há pouco tempo tinham uma vida estruturada mas que perderam tudo”. Por exemplo, já tiveram casos de “professores a necessitar de ajuda, porque não foram colocados e que, por algum motivo, não tiveram direito ao subsídio de desemprego”. Nestas alturas, “mais do que qualquer outra coisa que lhes possamos dar, nunca falta uma palavra de apoio. É muito importante que as pessoas se sintam apoiadas nos piores momentos, para os poderem superar. E também é para isso que aqui estamos”.

Um dos resultados mais satisfatórios é a comunidade que se estabelece: “é engraçado como muitas das famílias que a associação ajuda e que superam os seus problemas, regressam mais tarde para oferecerem a sua ajuda a outras famílias”.

Rede nacional

A nível nacional, nem todos os pólos da Igreja Vida Abundante têm uma associação de ajuda social, como aquela que decidiram estabelecer na Lousã. Segundo Elisa Miguez, “depende muito das necessidades de cada comunidade, existem algumas em que foram desenvolvidos infantários ou lares de terceira idade, por exemplo. Nós começámos este trabalho aqui na Lousã porque percebemos que era necessário”.

Elisa Miguez salienta ainda que o importante para a associação “não é ficar conhecida, mas suprir necessidades sociais imediatas”. E sem dúvida que o têm conseguido, pois se o seu historial de trabalho já é bem longo, “não são muitas as pessoas que sabem localizar a associação”.

Susana Nunes  |  19 Outubro 2007

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